segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Algumas divagações tribais e afins...

Engraçado como as coisas se misturam... preguiça, desculpas e falta de informação rapidamente se tornam motivo para criar "regras" sem pé nem cabeça, opiniões sem embasamento e por aí afora...

Qual a melhor maneira de ficar bom em alguma coisa? Fazendo aulas, workshops ou cursos de 2.000 reais com professores internacionais? Não... isso é complemento, isso tudo ajuda... pra ficar bom em alguma coisa você tem que QUERER fazer bem aquela coisa. E querer não significa "ah eu quero" e pronto. 
Querer significa que você quer o PROCESSO, você quer aquilo todos os dias, você quer ler, estudar e praticar todos os aspectos envolvidos naquilo que você quer fazer bem. No caso da dança, mais especificamente, do estilo tribal, a nível profissional, significa ainda mais: significa conceitualizar e executar figurinos de alto padrão (o que não é sinônimo de caro, apenas bem feito e bem pensado), aprender a fazer uma maquiagem eficaz, garimpar e editar boas músicas, fora todos os outros aspectos físicos envolvidos na prática de qualquer dança.

A dança se aprende na frente do espelho, dançando e treinando, repetindo, malhando, até ficar bom. É assim com QUALQUER dança que tenha pretensão profissional ou artística. Não, dança não é arte. É uma das muitas ferramentas para a arte. Toda dança tem potencial artístico, o que não quer dizer que toda dança será artística. E essa é uma diferença importante. 

Tenho a sensação de que na intenção de "fazer arte" pula-se muitas etapas no âmbito da nossa dança, e isso interfere na elevação do nível técnico e artístico de nossas produções. A questão não é, nem nunca foi, no tribal onde cada um preza por ter ou "criar" seu estilo próprio, a discussão de "técnica X arte", pois elas não são coisas separadas. Um é ferramenta para o outro. E técnica é sempre proveniente de treinamento e repetição, organização física e mental e quiçá, espiritual. Como construir a técnica experimentando de tudo um pouco, e muito de nada? Corpo é matéria orgânica, e memória muscular é um fato e não uma opinião. Finalizando, deixo com quem diz melhor do que eu seria capaz, um pensamento com o qual concordo absolutamente, e que busco atingir (porque se é pra olhar, olho pro alto!):

"Para dominar uma técnica é preciso incorporá-la inteiramente: só assim o movimento flui com naturalidade e o bailarino dança como respira. Então, já não há mais preocupação em seguir uma técnica. Por isso, costumo dizer a meus alunos: eu não danço, eu sou a dança. É o que eu gostaria que todo bailarino sentisse." - Klauss Vianna

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O corpo da dança

Conversando com uma colega esses tempos, discutíamos como o ATS tem um "corpo" específico, e sobre a dificuldade de conseguir esse "corpo".

Se compararmos com os esportes, por exemplo, o nadador tem um corpo, o corredor outro, o jogador de futebol outro... A gente até consegue adivinhar de qual esporte um atleta vem só de olhar para seu corpo! Nadadores têm ombros largos (bastante!), corredores são fortes porém muito esguios, têm uma leveza muscular, jogadores de futebol têm muita perna... e assim vai. 

Na dança não é diferente! Quando praticamos muito alguma coisa, o corpo ganha a memória muscular pela repetição, e isso vai moldando o tal do corpo da dança. Sem contar preparos físicos específicos que precisamos adquirir para melhorar nosso desempenho na dança, o que também vai moldando o corpo. Sem sair do universo das danças étnicas, uma dançarina de flamenco, por exemplo, costuma ter um torso forte, ombros mais largos pelas posturas de braço altas e vigorosas e tornozelos fortes pelo sapateado; as danças brasileiras trazem uma pelve pesada, enraizada, e pernas fortes por toda flexão de joelhos; dançarinas do ventre costumam ter um tônus muscular equilibrado, não muito alto e costumam ser flexíveis, de abdômen forte - o que não se limita a "barriga tanquinho", pode-se ter um abdomên forte sem ter tanquinho. 
E o ATS? O ATS traz postura altiva, não usamos quase movimentos laterais de torso o que traz um centro forte, peito erguido, braços bem desenvolvidos para suportar a sustenção alta quase que o tempo inteiro, quadris acentuados para o trabalho de repertório rápido... Uma configuração física diferente do tribal fusion, por exemplo, que enfatiza mais a flexibilidade, as lateralizações de torso, flexões da coluna em todas as direções e isolamentos fortes e precisos. 
Ao mesmo tempo em que esse corpo é fruto da dança ele é também facilitador dela. Quanto mais o corpo tiver sido moldado por aquilo, mais facilmente ele irá desempenhar a técnica. Por isso que é tão difícil adquirir o corpo de cada dança,  porque cada uma tem suas características físicas específicas, e muitas horas de treino estritamente na modalidade são necessários para adquirir essa identidade. E uma vez adquirida, você não se desfaz de uma hora pra outra, e muda a chavinha pra próxima dança. Torna-se parte de você, parte do seu corpo e tudo que você fizer a partir desse momento será construído a partir da configuração que você já tem. Leva anos para adquirir memória muscular nova a ponto de chegar no corpo de outra dança, e tenho sérias dúvidas sobre a habilidade de entrar e sair totalmente de uma dança pra entrar em outra. São caminhos criados no cérebro por anos e anos de treinamento, e a partir do momento que foi dada prioridade para uma dança em detrimento de outra, seu corpo habitua-se aquilo. Não dá pra imergir em tudo, e ter o corpo de tudo. Havendo priorizado a linguagem do Tribal Fusion por muitos anos, corri e corro ainda atrás do corpo de ATS. 
Por isso, acho legal ter essa consciência ao estudar. Quando você sabe o corpo de qual dança você quer, fica mais fácil ser bom em alguma coisa! ;)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Improviso Solo no Tribal Fusion



Existem muitas linhas de raciocínio diferentes sobre o improviso... Para alguns, improvisar é dançar sem pensar, só deixando o corpo seguir a música. Para outros, é ter vários movimentos e sequências na manga para sair usando-os estrategicamente.

Se considerarmos a primeira definição, o improviso é uma dança livre, sem formas pré-definidas, tipo dançar na balada. Você só responde a um estímulo físico gerado pela música, sem pensar a respeito. Na segunda, por outro lado, é quase uma coreografia instantânea, uma vez que a dançarina usa fórmulas que já conhece para responder a música com coerência.

Mas o que exatamente acontece quando uma dançarina leva para o palco um improviso solo? Definitivamente o que vemos não é uma dança "de balada", já que são usados movimentos que correspondem ao estilo de dança que a dançarina representa, nesse caso específico, o Tribal Fusion.  Afinal de contas, que modo mental é esse que permite que você responda a música com naturalidade e ao mesmo tempo não pareça uma doida dançando na balada? 

Para mim, o tal chamado "improviso" - entre aspas porque não sei o quanto pode ser considerado improviso uma música que você já dançou 500 vezes para treinar - é uma fina linha entre o pensar e o não pensar. O agir e o se deixar levar. Na minha concepção, não existe improviso organizado sem alguma racionalização por trás em algum momento. Não é questão de pensar o tempo todo - para mim, o improviso rola fluído quando eu consigo dançar e ser dançada ao mesmo tempo, alternadamente. Quando vejo alguma coisa de que gosto no vídeo assistindo depois e falo "Nossa, eu fiz isso? Não me lembro!". Para mim esse é o sinal de que o improviso foi bem sucedido.

 Daí a importância do treino! De já ter tanta coisa registrada no corpo, que na hora de fazer, vai sair meio que sem ter que pensar. É aí que a gente consegue sentir a música! Não existe tanta diferença entre uma excelente coreografia e um excelente improviso - ambos exigem a mesma presença de espírito, a mesma presença física e mental, o estar ali 100% para o momento. 

Afinal, não existe mística para o improviso, existe treino! Treino porque se fosse só pra sentir, dançava em casa e não no palco! Treino para entrar nesse estado mental tão especial, tão raro, em que o que existe é seu corpo, sua mente e sua música atuando como um só! 

E vocês? Qual sua definição e seus sentimentos em relação ao improviso? 

Beijos e até semana que vem! ;-D